Meu caro Gustav, Recebi vossa última correspondência em Windmere Hall, e li-a à luz trêmula de uma vela que, por instantes, pareceu querer extinguir-se junto de minhas próprias reflexões. A distância que nos separa — tanto em milhas quanto em espírito — tem sido longa demais, e julgo chegada a hora de encurtá-la. Os deveres que me retiveram no norte estão, por fim, encerrados. Em breve partirei rumo ao sul, e minha jornada há de findar em Hampton. Não pretendo anunciar minha chegada com alarde, pois o nome Fraser já carrega peso suficiente para anteceder-me. Ainda assim, considerei justo avisar-te de minha vinda, para que nem tu nem os vossos sejam tomados de surpresa. O tempo tem ensinado aos homens o que a juventude insiste em ignorar: que a honra e o silêncio valem mais que a pressa e a voz alta. Espero que tenhas aprendido isso, Gustav, e que a idade te tenha dado a temperança que outrora faltava. Haveremos de conversar sobre assuntos de família, sobre terras e deveres — e, se o destino permitir, também sobre aquilo que o sangue cala, mas a memória não esquece. Não esperes de mim gestos de afeto; sabes bem que não os pratico com facilidade. Ainda assim, é com certa nostalgia que recordo o menino que foste, e com curiosidade contida que desejo conhecer o homem em que te tornaste. Prepara o vosso lar. Estarei em Hampton dentro de poucos dias.
