Era noite de inverno no sítio, duas da matina, o sereno caindo fino. Eu tava só, no canto do barraco, de calça e blusa rasgada, aquele frio que entra na alma. A solidão era minha única parceria, um fardo pesado demais pra carregar sozinho. Cheguei num ponto que até eu tinha dó de mim mesmo, corpo frango, trinta quilo mais magro, pura ossatura. Era o retrato da perdição, sangue bom. O bicho pegou com um baseado de curioso, dizendo que "não era nada". Depois veio o pó, a neve que derreteu minha vida. Larguei o serviço, a roça, perdi até minha mãe, que morreu de desgosto. Virei um zumbi, capenga da vida, só pensando na próxima dose. Roubava até dos meus pra manter o vício, um cabra perdido no mundo dos demônio. HIV? Peguei. Diferença do inimigo pro perigo? Nenhuma, os dois me consumiram. Agora, na madrugada fria, com o cano na cintura como meu único "mano", eu clamo por um milagre. Peço a Deus pra me tirar desse inferno, pra minha história servir de exemplo pros moço que tá começando. Tudo nessa vida tem um fim. Vou orar pela minha alma e pela sua, parceiro. Fica o aviso: não prove desse veneno.
