Leandro Filosofia
بواسطة Knights ClubANGÚSTIA DA MODERNIDADE: REFLEXÕES FILOSÓFICAS SOBRE A VIDA, O TEMPO E A IDENTIDADE
Introdução
A angústia é como uma sombra persistente que acompanha a modernidade, revelando as fissuras e paradoxos da vida contemporânea. Se, por um lado, conquistamos mais liberdade e autonomia, por outro, essas vitórias vêm tingidas de incerteza, fragmentação e um vazio que ecoa fundo. O avanço dos horizontes individuais e coletivos, longe de ser apenas libertador, traz consigo desafios inéditos, fazendo da angústia um sentimento que atravessa tanto o íntimo quanto o coletivo.
Neste cenário, a angústia não é apenas um sentimento isolado, mas um alarme social que revela as engrenagens ocultas do poder, o impacto das tecnologias e as pressões culturais que moldam o sujeito moderno. A hiperconectividade digital e o burnout são sintomas visíveis dessa angústia, infiltrando-se no cotidiano, nas relações e no próprio tecido do bem-estar coletivo.
Este trabalho convida o leitor a uma travessia crítica e interdisciplinar, costurando fios da filosofia existencial, da psicanálise e das teorias socioculturais. Aqui, a angústia moderna é vista não como um drama solitário, mas como um sintoma profundo das engrenagens sociais e culturais do nosso tempo. O coração da discussão pulsa na tensão entre o desejo de autonomia e as rédeas do controle social. Cada disciplina lança sua luz sobre a mesma pergunta: de que forma a angústia da modernidade esculpe o sujeito de hoje? Enquanto a filosofia existencial investiga a liberdade e a responsabilidade, a psicanálise mergulha nos conflitos internos, e as teorias socioculturais desvendam as forças coletivas. Ao longo dessa investigação, buscamos entender como a angústia se manifesta e explorar caminhos para uma vida mais autêntica, significativa e equilibrada.
A jornada deste estudo se desenrola em três grandes movimentos: primeiro, mergulhamos nos alicerces filosóficos da angústia moderna e suas transformações; depois, adentramos o universo da psicanálise e das dinâmicas socioculturais atuais; por fim, enfrentamos os desafios do nosso tempo, com destaque para o impacto das tecnologias digitais e da cultura da performance, buscando estratégias e novas perspectivas para lidar com a angústia e cultivar o bem-estar.
Fundamentos Filosóficos da Angústia Moderna
A angústia moderna, enquanto fenômeno existencial e social, está estreitamente entrelaçada com o conceito ambíguo de liberdade que organiza a experiência subjetiva na modernidade contemporânea. Tradicionalmente exaltada como princípio de autonomia e emancipação do indivíduo, a liberdade revela-se cada vez mais como um constructo marcado por tensões, limitações e paradoxos.
Michel Foucault (1995, p. 200) problematiza a liberdade como prática de poder e alerta que “o sujeito é convocado a um governo de si que o torna simultaneamente responsável e vigilante de seus próprios comportamentos, em consonância com normas sociais e econômicas que regulam as condutas esperadas”. Tal “liberdade normativa” constitui uma forma de controle biopolítico dissimulado, ou seja, um controle sobre a vida através de práticas sociais e políticas ocultas, no qual a autonomia é “incorporação de um regime autorregulatório internalizado” (FOUCAULT, 1995, p. 205).
Zygmunt Bauman (2001, p. 25) amplia a compreensão ao destacar que a modernidade líquida se caracteriza pela “fluidez e volatilidade das relações, das instituições e das identidades”, onde “a liberdade lança o indivíduo numa constante reinvenção de si mesmo”. ("Modernidade líquida e incertezas sólidas: mundo globalizado e limites do capitalismo por Zygmunt Bauman", n.d.) Essa “liberdade líquida” exacerba a angústia ao privar o sujeito de fixidez e segurança, impondo-lhe um ciclo incessante de incertezas.
Axel Honneth (1992, p. 115) contrapõe a ideia de autonomia idealizada ao enfatizar que “a verdadeira liberdade se sustenta no reconhecimento mútuo, que se manifesta nas relações de amor, direito e estima social”. (Puppin, n.d.) Ele destaca que o sofrimento subjetivo e a angústia derivam da “falta ou negação de reconhecimento”, ou seja, da exclusão social e do não reconhecimento da dignidade do sujeito. Dessa forma, a liberdade é inseparável das condições sociais que a sustentam.
A angústia moderna nasce do choque entre o sonho de uma liberdade sem limites e as amarras invisíveis que a realidade impõe. O sujeito vive uma liberdade que, paradoxalmente, se transforma em prisão, alimentando insegurança, solidão e sofrimento.
Portanto, uma análise crítica que articule as contribuições de Foucault, Bauman e Honneth é fundamental para compreender que o mal-estar da modernidade não se reduz à condição subjetiva individual, mas é inseparável das relações sociais de poder, reconhecimento e exclusão. Foucault e Bauman convergem na análise das dinâmicas de poder que moldam práticas sociais, embora Foucault enfoque principalmente as instituições disciplinares e Bauman aborde a fluidez das identidades modernas. Honneth, por sua vez, destaca-se ao associar a liberdade ao reconhecimento mútuo, o que amplia a discussão sobre autonomia social e individual. Compreender essa tensão possibilita pensar em intervenções que atendam a dimensão coletiva da angústia e promovam formas de liberdade que integrem autonomia e justiça social.
Nietzsche e o Niilismo Atualizado
Nietzsche inaugurou a profunda crise das referências metafísicas com sua proclamada “morte de Deus”, apontando para o colapso das certezas morais e metafísicas que orientavam a existência humana (NIETZSCHE, 2001). (Silva, 2024) No contexto histórico do declínio das instituições religiosas e da ascensão da razão científica, essa crise implicou a responsabilidade do sujeito na criação autônoma de seus valores.
Essa liberdade radical, ressaltada por Nietzsche como uma condição necessária, também se revela um desafio angustiante. Segundo Foucault, a liberdade moderna torna-se, paradoxalmente, um modo sutil de controle — a biopolítica pública e privada impõe ao indivíduo uma disciplina contínua de si mesmo, mediada por práticas de autorregulação e vigilância interna (FOUCAULT, 1995). Assim, o sujeito moderno permanece preso numa rede invisível de poder que manifesta a angústia da responsabilidade absoluta e da constante exposição ao olhar social.
No universo digital de hoje, o niilismo ganha novas camadas: a hiperconectividade e a exposição constante exigem que o sujeito se reinvente diante de plateias múltiplas, intensificando a angústia de uma existência cada vez mais fragmentada e teatral.
Weber: Racionalização e a Gaiola de Ferro Digital
Max Weber analisou a racionalização crescente da modernidade, especialmente a burocratização, que moldou instituições impessoais regidas por regras e normas formais, produzindo o que chamou de “gaiola de ferro” (WEBER, 2004). (Festi, 2020) Essa metáfora revela a alienação do indivíduo que, inserido em sistemas cada vez mais racionais e eficientes, perde o contato com a subjetividade e o sentido propriamente humano.
No século XXI, a racionalização manifesta-se nos ambientes digitais que estruturam o trabalho, a comunicação e a vida social. Plataformas e algoritmos reduzem indivíduos a dados, métricas e gráficos. A busca incessante por desempenho amplia a "gaiola de ferro", tornando a angústia mais aguda diante de metas inatingíveis e intensificando o esgotamento emocional.
Dessa forma, a crítica weberiana é atualizada pelo impacto das tecnologias digitais, evidenciando que a alienação na modernidade avançada é marcada por novas formas de controle internalizadas pelo sujeito, que passa a vivenciar um ciclo contínuo de busca por eficiência e reprodução sistêmica.
Durkheim, Foucault e Adorno: Anomia, Biopolítica e Cultura de Massa
Durkheim destaca a anomia como ruptura dos laços normativos que sustentam a coesão social, resultando em desorientação, insegurança e aumento de fenômenos sociais patológicos como o suicídio (DURKHEIM, 1987). ("Anomia", n.d.)
Foucault expande essa perspectiva ao analisar as instituições disciplinares e as práticas biopolíticas que regulam corpos e mentes, moldando subjetividades e produzindo sofrimento difuso (FOUCAULT, 1995). (Silva, 2006) A biopolítica contemporânea, ampliada pelas tecnologias digitais, controla formas mais sutis e onipresentes de poder, internalizadas pelos indivíduos em modos de autovigilância que aumentam a ansiedade e o estresse.
Adorno oferece a crítica cultural necessária ao revelar como a razão instrumental domina a cultura por meio da mercantilização e do consumo, alienando o indivíduo e transformando-o em espectador passivo de uma cultura de massa conformista e homogeneizadora (ADORNO, 2002). (Silva, n.d.) Essa cultura de massa contribui para a angústia ao retirar o sujeito da autonomia criativa, substituindo-a por padrões impostos de comportamento e consumo.
A convergência dessas perspectivas revela a angústia moderna como um fenômeno multifacetado, resultante da desintegração social, da internalização difusa do poder e da instrumentalização da razão. Contradições históricas e sociais ampliam sua complexidade, tornando indispensáveis análises interdisciplinares para sua compreensão.
Existencialismo e Angústia: Novas Visões. Kierkegaard: Angústia e o Salto de Fé.
Kierkegaard concebe a angústia como o sentimento paradoxal que surge diante da infinita liberdade e possibilidade de escolha, uma "vertigem da liberdade" que nos confronta com o abismo do nada (O Conceito de Angústia, 1844). (Garaventa, n.d.) Para ele, a angústia é condição inevitável da existência humana, pois revela a responsabilidade radical do indivíduo diante do incerto.
O "salto da fé" é a resposta existencial à impossibilidade da razão prover sentido absoluto, um ato que supera a angústia pelo compromisso subjetivo com o divino e o transcendental. Kierkegaard afirma:
"A angústia é o medo da possibilidade do impossível, a possibilidade de não ser e, justamente por isso, ela é o movimento do espírito para o infinito e a única possibilidade pela qual o espírito adquire sua verdade" (KIERKEGAARD, 1994, p. 111). ("O Conceito de Angústia", 1994)
Essa resposta, de natureza profundamente religiosa e subjetiva, propõe uma transformação interior que converte a angústia em força vital para uma existência autêntica.
Sartre: Liberdade e Responsabilidade Radical
Sartre seculariza o existencialismo, deslocando-o para o campo da radical liberdade sem referência a entidades transcendentes. Em O Ser e o Nada (1943), ele descreve a angústia como a consciência da liberdade absoluta, em que o sujeito percebe sua ausência de determinações prévias e a responsabilidade plena de suas escolhas:
"A angústia é o sentimento da liberdade, ou melhor, o sentimento do nada que é a liberdade [...] a angústia é o ser para a liberdade diante do ser para si" (SARTRE, 2010, p. 156). (Sartre, 1943)
Para Sartre, a angústia apresenta uma dualidade: constitui tanto uma prisão diante do vazio quanto uma oportunidade de criar autonomamente o sentido da vida. Na ausência de referências morais externas, o sujeito assume o peso da liberdade, que, por sua vez, alimenta a angústia.
Confronto Kierkegaard-Sartre
Enquanto Kierkegaard busca um escape da angústia pela fé que ultrapassa o desespero, Sartre reafirma a necessidade de encarar a angústia para dar sentido à existência na ausência de transcendência. Ambos concordam que a angústia é condição fundamental para uma existência autêntica, mas divergem em suas soluções:
Kierkegaard: "Sem o salto da fé, a angústia conduz ao desespero e à inautenticidade."
Sartre: "É somente aceitando nossa angústia que podemos construir valores e sentido genuínos."
Repercussões Contemporâneas
A psicologia existencial, representada por May (1969), apresenta a angústia como manifestação inevitável da liberdade, vinculada à consciência da finitude e da responsabilidade pessoal. ("Responsabilidade Existencial: Tecendo Liberdade em Cada Escolha", n.d.) Frankl (1946/1992), em sua logoterapia, entende o sofrimento e a angústia como potencializadores da busca de sentido:
"Entre o estímulo e a resposta há um espaço. Nesse espaço está nosso poder de escolher a resposta" (FRANKL, 1992, p. 21).
Conceitos oriundos de filosofias não ocidentais, como o Ubuntu africano e o Sunyata budista, enriquecem a compreensão ao enfatizar a interconectividade e a aceitação do sofrimento como parte do viver coletivo, contrapondo-se ao individualismo exacerbado típico da modernidade ocidental. Ubuntu, na tradição africana, sublinha a conexão intrínseca entre as pessoas, promovendo um sentido de comunidade e solidariedade que desafia a noção ocidental de individualismo. (Taperero Fernando, 2025) Essa filosofia sustenta que a identidade de uma pessoa é moldada e enriquecida pelas relações com outros, um contraste marcante com a busca de autonomia isolada comum no pensamento ocidental. Por outro lado, a Sunyata budista introduz a ideia de 'vazio' como liberdade, ressaltando a interdependência e a ausência de um eu fixo e inerente. Essa perspectiva questiona a fixidez das identidades e oferece uma visão fluida do ser, permitindo que o sujeito encontre harmonia no meio das incertezas e transições. Ambas as filosofias apresentam abordagens que suplementam e desafiam as estruturas clássicas ocidentais, encorajando uma reconciliação entre a autenticidade individual e o bem-estar coletivo.
Psicanálise e a Estrutura do Sujeito Contemporâneo
Freud: Angústia como Sinal de Perigo
Freud, em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), estabelece a angústia como um sinal antecipatório do inconsciente, um aviso diante da ameaça de desejos reprimidos ou conflitos internos que podem romper a barreira do consciente:
"A angústia é o sentimento de um perigo iminente, real ou imaginário, em que o indivíduo não vê escapatória" (FREUD, 2014, p. 41). ("Angústia: do que se tratHoje, o medo de ficar de fora (FOMO) e o uso compulsivo das redes sociais são sintomas desse embate: o sujeito vive em permanente estado de alerta e insatisfação, dividido entre desejos intensos e as barreiras impostas pela sociedade.ação social.
O Mal-Estar na Civilização: Freud e a Tensão entre Pulsão e Cultura
A obra clássica de Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização (1930), é fundamental para a compreensão da tensão intrínseca entre o indivíduo e a sociedade na modernidade. (Rebelo, 2020) Freud parte da constatação de que a civilização exige do sujeito uma renúncia significativa às suas pulsões instintivas, especialmente aquelas ligadas à agressividade e à sexualidade, como condição para a vida em comunidade ordenada.
Essa renúncia, embora necessária, gera um mal-estar estrutural — uma insatisfação persistente que acompanha a existência humana dentro da cultura. Para Freud,
"A felicidade constante e completa não existe no ser humano, pois a cultura requer renúncia e repressão das pulsões, o que gera sofrimento" (FREUD, 1930/1998, p. 5). ("O Futuro de uma Ilusão", n.d.)
Ele argumenta que a civilização, ao impor normas que regulam e reprimem esses impulsos, procura garantir segurança e ordem social, mas ao custo da frustração individual. Esse conflito gera uma neurose coletiva, cujas manifestações variam desde infelicidade até doenças psíquicas, esclarecendo a origem social e psicológica da angústia.
Freud também explora a agressividade como um componente inevitável da natureza humana que a cultura tenta controlar através de substituições simbólicas e institucionais, como a religião, a lei e o aparato jurídico. ("Teorias psicanalíticas de Sigmund Freud", n.d.) Mesmo assim, a agressividade pode se manifestar em fenômenos coletivos, como guerras, violência e destruição.
Além disso, Freud identifica que o mal-estar não é apenas uma consequência da repressão pulsional, mas também uma luta constante do sujeito para equilibrar o desejo de liberdade com a necessidade de conformidade social, uma tensão que se manifesta no regime da culpa e da repressão interna.
No contexto contemporâneo, as reflexões de Freud ganham atualidade na análise do burnout e do sofrimento psíquico que emerge da sociedade do desempenho, da hiperconectividade e da pressão por resultados, evidenciando que muitas das estruturas que Freud apontou permanecem ativas sob novas formas, incluindo a mídia digital e a economia da vigilância.
A obra fornece uma base fundamental para pensar a angústia como expressão das tensões irresolúveis entre a pulsão individual e as exigências do sistema cultural, fundamentando intervenções terapêuticas e reflexões sociais profundas.
Lacan: Angústia Estrutural e a Condição do Sujeito na Modernidade
Jacques Lacan reformula a psicanálise tradicional a partir da linguagem, propondo que o sujeito é constituído no “Outro”, isto é, na relação com a linguagem simbólica que o precede e estrutura sua existência. (Figer, 2016) Sua teoria expõe o sujeito como falta, dividido e incompleto, marcado por um vazio essencial que nunca pode ser preenchido.
Nesse contexto, a angústia não é mero sintoma, mas uma experiência estrutural ligada à constituição do sujeito. Lacan a situa no “Real” — uma das três ordens psíquicas que ele conceitua (Real, Simbólico e Imaginário). O Real é o impossível de simbolizar, a dimensão do trauma, do que escapa à linguagem e ao sentido pleno. A angústia se manifesta quando o sujeito confronta esse vazio e a impossibilidade de controlar ou nomear o Real (LACAN, 1962-1963). ("O Simbólico", n.d.)
O “objeto a” (objeto pequeno a) representa a causa do desejo, o objeto perdido que o sujeito persegue incessantemente, mas que nunca alcança. Essa busca perpétua constitui o movimento do desejo e da angústia como condição maior da existência humana. ("O Objeto ‘a’ em Lacan: Um Guia Abrangente", n.d.) Para Lacan:
"A angústia é o que resta quando o órgão do saber se cala, quando o corpo não encontra palavra para o Real que lhe ameaça" (LACAN, 1962-1963).
Na modernidade, onde a experiência se fragmenta e as certezas se dissolvem em meio a uma enxurrada de estímulos, o conflito estrutural da angústia se agrava. O sujeito contemporâneo, transformado em mercadoria e bombardeado por demandas digitais, sente o peso da exposição, da vigilância e da busca interminável por sentido e reconhecimento — expressões pulsantes de uma falta que nunca se preenche.
Além disso, Lacan mostra que a angústia está ligada à posição do sujeito diante do desejo do Outro — a angústia surge quando o sujeito não pode atender plenamente a essa demanda, refletindo as tensões sociais de controle e autonomia na cultura moderna.
A abordagem lacaniana orienta para a compreensão da angústia não apenas como uma patologia individual, mas como expressão das condições mais profundas da constituição subjetiva em um mundo marcado por relações simbólicas complexas, tecnologia e cultura da vigilância. Essa visão é essencial para entender muitos dos fenômenos psíquicos contemporâneos, como a ansiedade digital, o burnout e as crises identitárias.
Angústia, Tempo e Identidade na Modernidade Avançada
Rosa (2010) destaca a aceleração social como fonte central do vazio existencial moderno. O ritmo acelerado das mudanças tecnológicas, informacionais e do trabalho reduz o tempo disponível para reflexão e processos de elaboração subjetiva, provocando um “estranhamento temporal” que desorienta o sujeito. (Tziminadis, 2018) Para ele:
"A aceleração da vida social destrói a experiência de duração, fragmentando o tempo e comprometendo a construção de sentido" (ROSA, 2010, p. 45).
Han (2010) amplia a análise com o conceito da sociedade do desempenho, caracterizada pela autoexploração incessante em nome da eficiência e da conquista. Os indivíduos internalizam a lógica do capital, criando uma pressão constante que resulta em adoecimento psíquico, sendo o burnout uma expressão clínica desse processo:
"A sociedade do desempenho exige que nos tornemos empresários de nós mesmos, submetidos a uma performance infinita e exaustiva" (HAN, 2010, p. 37). (Rodrigues, 2022)
Estudos recentes da OMS (2023) confirmam o aumento global do burnout, especialmente em setores que privilegiam práticas intensas de trabalho e avaliação contínua, como tecnologia, saúde e educação. ("OMS classifica burnout como condição de saúde ocupacional", 2025)
Na era da hiperconectividade, a identidade se desfaz em múltiplos fragmentos: o sujeito se torna curador de si mesmo, editando e exibindo versões variadas para diferentes públicos. Essa multiplicidade, longe de enriquecer, pode aprofundar a angústia e a sensação de não ser autêntico. O paradoxo é claro: quanto mais presença digital, maior o vazio interior. Entre os jovens, esse fenômeno é ainda mais intenso, como revela o depoimento de uma adolescente: 'Administrar múltiplos perfis nas redes sociais é como viver várias vidas ao mesmo tempo. Cada perfil exige que eu mostre um lado diferente de mim mesma, mas às vezes isso me faz sentir como se nenhuma dessas versões fosse realmente eu de verdade.' O relato escancara o impacto da fragmentação identitária nas novas gerações, imersas nesse universo digital.
Nesse contexto, a perspectiva de Zygmunt Bauman sobre a modernidade líquida é especialmente pertinente. Para Bauman, a fluidez e a instabilidade das relações sociais, dos papéis e das próprias identidades na sociedade contemporânea produzem uma sensação permanente de insegurança e angústia. (Gabriel, n.d.) A modernidade líquida dissolveu as ancoragens sólidas do passado — instituições, valores, relações duráveis — criando um cenário em que o sujeito deve constantemente reinventar a si mesmo em respostas frágeis a um mundo em mudança rápida e imprevisível.
Bauman ressalta que essa "liquidez" da existência implica que nada é dado para durar: empregos, relacionamentos, projetos de vida são experimentados em ciclos de incerteza e descartabilidade, o que provoca um sentimento de desamparo e “desembaraçamento” subjetivo. ("Amor Líquido", n.d.) A construção da identidade torna-se um projeto individual permanente, uma busca inquietante para manter alguma coerência em meio ao fluxo incessante de mudanças (BAUMAN, 2001).
Essa fluidez constante alimenta uma angústia própria: a ansiedade de não dar conta das mudanças e a sensação de que a segurança é sempre passageira. O peso de ser responsável por tudo — na vida, no trabalho, nas relações — amplia a vulnerabilidade e o medo do fracasso, aprofundando a alienação e o vazio que marcam a experiência contemporânea.
A Tecnologia Digital e a Angústia Moderna
As redes sociais de hoje amplificam o FOMO, alimentando uma ansiedade por conexão e aprovação que nunca se sacia. Rolamos a tela em busca de novidades, mas o vazio só aumenta ao perceber que o mundo digital segue sem nós. Cada curtida ou comentário traz uma validação fugaz, e a cada atualização, cresce a esperança de preencher o vazio — esperança que, quase sempre, se transforma em mais ansiedade.
"O FOMO é sintoma de uma sociedade comunicacional que valoriza a visibilidade, transformando a conexão numa fonte de angústia mais que de pertencimento" (PRZYBYLSKI et al., 2013, p. 1846). ("Can You See Me Now? Audience and Disclosure Regulation in Online Social Network Sites", 2013)
As redes sociais funcionam como arenas em que o desempenho se torna o valor central. A cultura da comparação constante evidencia aspectos inquietantes da subjetividade moderna. O processo de "curadoria do eu" incentiva a busca por validação em curtidas e comentários, enquanto a performance digital, orientada pela busca de perfeição e popularidade, remete à ideia de simulação de Baudrillard: uma existência encenada, filtrada e voltada ao consumo, frequentemente distante da autenticidade.
Foucault (2018), em seus estudos sobre biopolítica, nos ajuda a compreender como essa dinâmica excede a mera interação social para se tornar uma forma de controle. As tecnologias de vigilância digital e os algoritmos de recomendação configuram um regime de poder que molda comportamentos e subjetividades, promovendo não só o controle externo, mas também a auto-vigilância. (Santos, n.d.) Nesta modernidade líquida que Bauman descreve (2001), o sujeito encontra-se constantemente produzido e reconfigurado em relações frágeis e transientes, num contexto onde a identidade é vulnerável e instável. Bauman chama atenção para a fluidez da identidade na modernidade contemporânea, onde as redes sociais intensificam o processo de mercantilização do eu, impondo a performance como moeda social e exacerbando a angústia provocada pela insegurança e pela comparação social permanente.
Por esse prisma, as redes sociais não só refletem, mas amplificam as engrenagens da angústia: a busca pela imagem perfeita, o medo de exclusão e a sede por validação passageira acabam por isolar ainda mais o sujeito e enfraquecer o sentimento de pertencimento coletivo.
Apesar desse cenário crítico, emergem movimentos de resistência, como o detox digital, redes colaborativas e tecnologias voltadas ao bem-estar, que sugerem novas formas de enfrentar a angústia e promover ambientes mais saudáveis. Contudo, é necessário adotar uma perspectiva realista: o detox digital pode ser inviável para indivíduos que dependem da conectividade, redes autogeridas enfrentam desafios de expansão e o acesso a tecnologias de bem-estar é desigual. Essas limitações exigem cautela e evitam abordagens excessivamente otimistas diante dos desafios.
Conclusão
A angústia da modernidade revela-se como um fenômeno complexo, estrutural e multifacetado, inscrito na própria constituição do sujeito enquanto falta e desejo, conforme a releitura lacaniana, ao mesmo tempo em que se manifesta nas tensões sociais, culturais e institucionais da contemporaneidade.
A incorporação do entendimento lacaniano da angústia como encontro com o Real — o impossível e o indizível — amplia o alcance da análise para além da dimensão clínica tradicional, alcançando a experiência subjetiva em suas relações simbólicas e sociais. Essa perspectiva ajuda a compreender fenômenos como a ansiedade digital, o burnout e a fragmentação identitária como expressões da condição fundamental definida pela falta constitutiva do sujeito em um mundo marcado pelo excesso de estímulos e vigilância.
As reflexões filosóficas de Nietzsche, Weber, Durkheim, Foucault e Adorno, combinadas ao existencialismo e à psicanálise clássica e lacaniana, configuram um quadro interdisciplinar capaz de abarcar as múltiplas faces da angústia contemporânea. A aceleração social, a cultura do desempenho e a influência das tecnologias digitais intensificam essa angústia, exigindo respostas integradas que envolvam práticas clínicas, sociais e educativas.
É fundamental, portanto, reconhecer a angústia como uma condição estrutural que desafia o sujeito e a sociedade a refletirem sobre os limites da liberdade, os efeitos do controle social e as possibilidades de resgate do sentido, autenticidade e bem-estar.
Este estudo conclui destacando a necessidade de pesquisas futuras com metodologias empíricas que aprofundem a compreensão e a intervenção no fenômeno da angústia, bem como a urgência de promover ambientes sociais e educativos que considerem sua complexidade, com foco no desenvolvimento integral do sujeito. Em consonância com essa necessidade, argumenta-se que uma abordagem holística da saúde mental é fundamental para enfrentar a angústia contemporânea de modo eficaz. Tal abordagem deve integrar dimensões psicossociais, culturais e tecnológicas, oferecendo intervenções personalizadas que contemplem a pluralidade das experiências humanas. Essa perspectiva favorece práticas mais inclusivas e sustentáveis, promovendo o equilíbrio entre autonomia individual e responsabilidades sociais.
Para a aplicação prática desses insights, recomenda-se a adoção de práticas como mindfulness e meditação, que podem contribuir para a redução da ansiedade e a promoção de um estado de presença. Além disso, a participação em projetos comunitários que promovam o bem-estar coletivo, o reconhecimento e a valorização mútua é incentivada. Tais práticas favorecem não apenas a saúde mental individual, mas também o fortalecimento dos laços sociais, criando redes de apoio solidárias capazes de mitigar as tensões características da vida moderna.